Desde 2004, o PDT está à procura de uma liderança que possa suprir o vácuo deixado por seu fundador, Leonel Brizola, morto naquele ano. Essa busca, entretanto, levou o partido à pior crise de sua história, que pode se agravar em 2026.
O nome Brizola levanta paixões e ódios, desde a década de 1950. Governador com três mandatos, prefeito de Porto Alegre, secretário, deputado federal e estadual, faltou a Brizola apenas ser presidente da República.
Ele bem que tentou, e em 1989 não chegou ao 2° turno com Collor por 0,5% dos votos. Em 94, após um governo tumultuado, ficou atrás de Enéas Carneiro. Quatro anos depois, foi vice de Lula. Em 2002, apoiou Ciro em sua última eleição, quando foi derrotado ao Senado pelo Rio.
Fundado em 1980, o PDT se tornou, entre 1982 e 1994, o maior partido de esquerda na Câmara. Em 94, viu o crescimento de Lula ofuscá-lo, mas sempre esteve entre as maiores bancadas, até que em 2004 Brizola faleceu, e o partido sentiu sua falta.
Desde então, o PDT vem buscando em outros espaços, avidamente, por lideranças que possam ocupar a lacuna deixada por Brizola. E a cada decepção, a crise se agrava: em 2006, Cristovam Buarque foi candidato à presidência, mas seus 2,64% rapidamente o tiraram do páreo.
O partido, então, decidiu aceitar a figura de Carlos Lupi, enquanto depositário do ideário trabalhista, respaldando sua ascensão a posições como o Ministério do Trabalho, entre 2007 e 2011, e o Ministério da Previdência, entre 2023 e 2025.
O PDT teve importantes oscilações no período, chegando ao patamar máximo de 28 deputados em 2018, após a primeira candidatura presidencial de Ciro Gomes pelo partido – o novo candidato a Brizola.
É fato que Ciro agitou o PDT, mas também gerou crises internas entre antigos dirigentes, acomodados em suas posições, e a nova geração de seguidores identificados com seu Projeto Nacional de Desenvolvimento. Líderes promissores saíram do PDT, que perdeu a chance de oxigenação.
Ciro alcançou o melhor desempenho histórico absoluto, próprio e do PDT, com 13,3 milhões de votos (12,4%). A performance, entretanto, não se repetiu com Lula no páreo em 2022, e Ciro atingiu apenas 3%. O PDT caiu para 17 cadeiras na Câmara.
No entanto, nem mesmo Ciro Gomes teve autonomia, a não ser no Ceará, para a construção de alianças com o objetivo de retomar seu crescimento, quantitativa e qualitativamente. Lupi, que não tem mandato desde 1995, é a última palavra do PDT sobre qualquer assunto.
A falta de renovação de quadros, a rejeição às novas lideranças, o fisiologismo de alguns diretórios estaduais, alianças estrategicamente ruins – como a liderança de Paulinho da Força em SP – e o esvaziamento ideológico trouxeram o PDT à principal crise de sua história.
Depois da janela partidária de 2026, o PDT foi o 2° partido com maiores perdas: alguns levantamentos dão conta de que a sigla perdeu 10 parlamentares, chegando ao seu menor patamar histórico, com apenas 7 cadeiras.
E não há nada que sinalize otimismo no horizonte do partido, que já teve seu fim decretado em inúmeras oportunidades anteriores, mas agora se depara com a encruzilhada histórica da cláusula de barreira e seu possível sepultamento eleitoral.
Nas eleições deste ano, vai enfrentar a votação mínima de 2,5%, sem a força de uma candidatura presidencial e sem nominata forte em estados importantes como o Rio de Janeiro, Bahia, Ceará, Amazonas, Pernambuco e Goiás.
Hoje, o PDT é menor que o PSOL, de quem tanto tripudiou, e pouco maior que o Cidadania, partido que entrou em um processo mais profundo de perda de identidade, e com quem tentou fusões em 2002 e 2005/06.
Tudo indica que o PDT, que disputou a hegemonia da esquerda com o PT em 89, vai perder determinadas prerrogativas funcionais de um partido político, como o ainda valioso tempo de TV, o que o empurrará para alguma federação ou, em último caso, para a fusão com outra sigla.
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Escrito por: Guilherme Galvão Lopes, Professor, pós-doutorando em História e Política (FGV), pesquisador UFRRJ, autor de 5 livros.
